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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Uma história recente de Goiânia

Por Lindomar Guimarães*

Comprava o Pasquim em bancas de revistas, que eram várias pelas ruas da Avenida 24 de Outubro, em Campinas. Em 1970, se vivia ainda os rigores do governo militar, as lembranças da revolução ainda eram muito presentes. Lembro-me de março de 1964, não sei o dia, quando aviões militares fizeram um voo baixo em Goiânia, numa atitude de intimidação. Minha mãe e minha avó corriam pelas ruas procurando todos, porque o Colégio Pedro Gomes estava sendo vigiado. Todos os livros supostamente de conteúdo comunista, ou que tinham o nome de Cuba na capa, eram queimados em casa, porque primos da minha avó foram detidos na Praça Cívica como comunistas e um parente mandou avisar que policiais estavam indo às casas para recolher livros suspeitos e prender pessoas. Até hoje não sei qual era o critério de definir um livro suspeito. De repente, bancas de revistas foram queimadas e quebradas com escritos nos muros de um tal CCC – Comando de Caça aos Comunistas. Os jornais Pasquim e Movimento eram alvos. O jornal 5 de Março, de Batista Custódio, foi um alvo importante na caça às bruxas. No pátio da Faculdade de Medicina, no Setor Universitário, o estacionamento continha os carros dos professores, e de alguns poucos alunos, porque a maioria de nós vinha das escolas públicas, desde o primário nos grupos escolares, do Colégio Pedro Gomes, do Liceu de Goiânia e do Colégio Universitário da UFG, dirigido pela professora Iracema Caiado. A repressão estimulava a criação, os festivais de música e teatro movimentavam o Cine Goiânia. Havia o Teatro de Emergência, ao lado do Jóquei Clube, palco de montagens de peças experimentais, e auditório, onde o professor Wassily Chuc empolgava os adolescentes, com os temas apresentados. A gloriosa revolução eliminou da cidade todos os símbolos de resistência. O Castelinho, no Horto, totalmente demolido, apagado e plantadas árvores no lugar. O elegante prédio da Faculdade de Direito da UFG, local de discursos inflamados, imediatamente cancelados com emprego da força legal da época. O DCE (Diretório Central dos Estudantes) – prédio de uma antiga boate da cidade, onde parte do teto podia ser aberta, local de bailes e shows dos estudantes universitários de Goiânia, nos finais de semana –, situado na viela que une a Avenida Anhanguera com a Rua 4, próximo da esquina da Avenida Araguaia, local onde foram encenadas peças de Brecht e feitas apresentações musicais de vanguarda, foi totalmente demolido, apagada sua memória e feito um simulacro de praça em seu lugar. E assim aconteceram fatos semelhantes em todo o País. Escrevo simplesmente uma memória, sem citar personagens e datas, mas é uma história recente, com maioria dos personagens vivos e atuantes. Há necessidade de se ordenar os fatos para conhecimento de todas as gerações que desconhecem essa história. O Teatro Inacabado, na Avenida Anhanguera, do saudoso Otavinho Arantes, é um marco importante na história cultural da cidade, que não deveria ser relegado ao esquecimento, onde diversas peças foram encenadas ali, como Com Puta Computador Computa, do Millôr Fernandes, estrelada por Fernanda e Fernando Torres, O Auto da Compadecida e tantas outras apresentações nacionais e locais. Goiânia ainda é uma capital jovem, mas rica de lembranças símbolos de participação na evolução deste País.

Toda a geração que viveu ativamente o período das décadas do meio dos anos 1960 até o final da década de 1970 sentiu na pele todas as transformações sociais impostas e decorrentes do período de repressão em que vivemos naquelas épocas. Houve uma transformação radical na forma do ensino público – penso que para pior. Já são vistas iniciativas de melhoras.

Mas essa geração, já cansada de apanhar, mesmo assim, acho que devemos continuar trabalhando, oferecendo experiência, com o espírito aberto à evolução do mundo moderno. Essa evolução caminha numa velocidade grande, porém muito voltada ao imediatismo, ao consumo exagerado de produtos, arte e acumulação de riqueza. O culto ao engrandecimento individual, ao pensamento para evolução humana na sua plenitude de ação, está ficando para trás.


Lindomar Guimarães é médico-ortopedista.

E-mail: lindomar@terra.com.br

Fonte: http://www.dm.com.br/impresso/7741/opiniao/61396,uma_historia_recente_de_goiania

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